Durante a noite caiu uma chuva torrencial. Aos primeiros raios de Sol , uma aragem
fresca acariciou as faces de Devaky que extasiada ouvia o festival de chilreios emitidos
pelos pássaros. As gotículas, deixadas pela chuva sobre o verde vivo das folhas, ofereciam um
encantador efeito cromático ao receberem os primeiros raios de sol daquele início de manhã.
Devaky ainda retinha em sua mente a imagem do santo homem que, na tarde do dia anterior, oferecera
a preciosa lição sobre o reto pensar. Ansiava pelo momento em que outra vez estariam reunidos
aos pés do Senhor Buda. Percorria a trilha aberta na floresta com seu cântaro apoiado no
ombro. Dirigia-se à fonte , onde apanharia a água que serviria para as necessidades do dia de
sua família. Não esperava encontrar o excelso instrutor sob a árvore aquela hora da manhã, por
isso foi com surpresa que escutou sua voz:
- Devaky, dê-me um pouco de água.
- Bhagavam!... Não esperava encontrá-Lo...- dizendo isto, pressurosa dirigiu-se à fonte levando a
pequena cuia que o Senhor Buda lhe entregou.
- A água que me ofereces está deliciosa, mas se me pedires , se quiseres, dar-te-ei
a água da Vida. Após bebê-la não mais terás sede.
- Quero. Dá-me desta água!
- Os ensinos que ofereço aos que me seguem, se compreendidos e seguidos, é a água que dessedenta
o Espírito que de nada mais precisará, pois com ela receberá a Vida ofertada por Brama . Muito, ainda, tu
caminharás através de outras vidas, até o dia em que poderás experimentar esta água. Digo-teisso para
que tua alma o recorde, quando for outra vez solicitada a dar água a um caminhante sedento que te
oferecerá outra oportunidade de entrar definitivamente no Caminho que leva à Vida .
- Se o Sri diz, acredito, mas porque não posso receber agora a água da Vida? ? perguntou Devaky, sem
entender direito a mensagem.
- Tudo tem seu tempo certo. A fruta só deve ser colhida quando amadurece, pois é quando apresenta
o melhor sabor. Agradeço a água Devaky, vai agora que teus familiares já despertos, aguardam-te.
Devaky pensativa, procurava entender o que o Senhor Buda lhe dissera. Não conseguindo, pensou
em recorrer a Shanda , irmão de Savitri, sua amiga. Ele certamente lhe explicaria .
??
Quando o primeiro discípulo chegou ao local do encontro, junto à fonte, lá já encontrou o
Senhor Buda.
Todos iam chegando e, em semicírculo, acomodavam-se silenciosos e respeitosos. O Mestre meditava
de olhos cerrados .
Quando o último se assentou, Buda abriu os olhos. Um lindo sorriso se abriu em sua augusta face.
- Amados, minha alma se alegra por ter contemplado o futuro de luz que todos um dia
alcançarão. Hoje vamos discorrer sobre o terceiro passo que devem dar para alcançar a
felicidade: Reta Palavra.
As palavras emitem poderosas vibrações, que geram na aura de quem as profere energias que
podem ser positivas e construtivas, ou não. Cada palavra gera cores, aromas e imagens. Se o
homem pudesse contemplar o efeito extraordinário que as palavras provocam, seria mais cuidadoso ao proferi-las.
Através da palavra Brama creou o Universo. A sagrada palavra AUM que ressoa do Sol
Central foi e é a fonte de toda vida manifestada. A palavra constrói e destrói.
- Como distinguir a reta palavra? Como nos precavermos para não pronunciarmos uma palavra
destrutiva? ? perguntou Janamajaya .
- A Reta Palavra é aquela que traz a quem a escuta vibrações construtivas. Abstenhamo-nos de
proferir palavras ociosas. O falar por falar gasta energias que poderiam ser utilizadas em propósitos mais
nobres, críticas , maledicências sujam a aura de quem as faz e sobrecarregam com estímulos negativos
a quem se critica ou maldiz. Repito: cada palavra produz uma cor , um aroma que pode ser
agradável , quando construtiva ou profundamente desagradável quando destrutiva.
Imprecações, palavras pesadas são como lixo malcheiroso que se derrama na aura, atraindo entidades
primitivas e agressivas que se alimentam desta energia deteriorada como o fazem as moscas , as baratas
e todos os insetos indesejáveis.
Devemos sempre falar das coisas boas e não das más em relação a nosso próximo. Muitas vezes nos contam
sobre atitudes ou vícios de alguém e nem sempre o que nos falam é verdadeiro. Se passarmos adiante
estas informações, também estaremos incorrendo em mentiras e prejudicamos assim a pessoa
em questão. Mesmo que fosse verdadeiro, estaríamos faltando com a caridade em relação a alguém que
precisa ser auxiliado e não difamado. Não gostaríamos se as críticas se referissem a nós mesmos ou a
alguém que amamos. Sejamos então prudentes e amorosos com nossos irmãos em humanidade para que
tenhamos também o direito de receber o mesmo tratamento que estamos dispensando. Lembremo-nos da Lei
do Carma: sempre retorna para nós o que fazemos a outrem.
É preferível o silêncio a um tagarelar inconseqüente. Se formos prudentes, não utilizaremos o poder
da palavra proferindo graçolas ou piadas que divertem os imaturos, mas que precisam ser evitadas por
aqueles que se esforçam por alcançar a emancipação espiritual.
É muito importante, também, o homem honrar a sua palavra, jamais fazendo promessas que não tenha
intenção de cumprir ? e quando prometer, se esforçar para cumprir.
- Bhagavam , se soubermos de algo que desabone alguém e verificarmos que uma terceira pessoa poderá
ser prejudicada se não a advertirmos. Como proceder? ? perguntou Shanda.
- Nesse caso, temos o dever de advertir a pessoa que poderia ser prejudicada, porém lembremos sempre de
não ultrapassar nosso limite. É importante sempre termos em mente: proceder com o outro como \
gostaríamos que procedesse conosco.
- É comum nos queixarmos quando alguém ou algo nos incomoda. Sentimos necessidade de
desabafar com um amigo o que muitas vezes está sendo difícil e penoso suportarmos sozinhos. Isto, também
contraria a regra da reta palavra?
- Sei que para a humanidade comum é muito difícil abster-se das queixas, justificadas ou não. O
objetivo de quem quer se elevar espiritualmente e alcançar a verdadeira felicidade, é fazer um esforço
constante de auto- aprimoramento. Brama, nosso Pai Maior, deve ser a quem devemos dirigir nossos
pensamentos, pedindo força e sabedoria para suportarmos as pressões do dia a dia, isso inclui as
queixas que devemos evitar. Se assim procedermos, não sobrecarregaremos nosso próximo com nossas
lamentações e poderemos perceber que o alívio será muito mais profundo. Obteremos a resistência e coragem
para superarmos o desconforto da pressão que estivermos sofrendo.
Se utilizarmos a nossa palavra de forma amável, com o intuito de encorajar, agradecer, estimular,
construir, estaremos fazendo uso do poder da palavra de forma correta ? encerrou o insigne Instrutor.
Devaky, conhecida, em vida posterior a esta, como
a Samaritana, encontrou com o Cristo no poço de Siloé, duas vidas mais
tarde.