Uma música muito conhecida possui um
trecho onde o compositor diz assim: "o tempo passa, e com ele caminhamos
todos juntos sem parar..." Não quero discutir aqui a inevitável
passagem do tempo. Gostaria de propor uma reflexão sobre quão
promissora a passagem do tempo pode ser.
Ainda que muitas pessoas não percebam,
o notório envelhecimento mundial pode ser considerado como uma
grande conquista da humanidade. Especialistas na área apontam
para a possibilidade de que o ser humano venha a alcançar uma
longevidade próxima aos 120 anos. Autocuidado, comedimento e
assistência adequada à saúde tenderiam a favorecer
essa trajetória.
Num âmbito geral, posso afirmar que
já estamos convivendo com indivíduos muito longevos e
até mesmo centenários, com os quais podemos conversar
sobre a vida e seus percalços. Creio que a mera oportunidade
dessa troca intergeracional tenderia a contribuir fortemente para que
jovens e velhos possam olhar o mundo através de uma perspectiva
mais próxima e, conseqüentemente menos conflitante. Não
pretendo desconsiderar as dificuldades, supondo que tudo são
flores, que todos envelhecem de modo similar, ou que todos possuem uma
mesma visão da velhice. Contudo, considero relevante esclarecer
que o envelhecimento não se traduz somente em perdas.
Envelhecer sem doenças pode até
ser raro, mas viver sem elas também pode ser à medida
que compreendemos que doenças são situações
que comprometem as condições físicas de pessoas
de todas as idades, e não ocorrem apenas na velhice.
O ciclo da vida transcorre silenciosamente,
e vivenciar o passar do tempo se assemelha a realizar um investimento
bancário: quanto mais investirmos em uma existência significativa,
estando abertos a aprender e ensinar, mais valores teremos acumulados
e, quando houver a necessidade de "sacar", nossa conta terá
um montante considerável a ser retirado.Viver de modo consciente
cada fase da vida, sentindo que todos os momentos são parte da
estória de estamos a escrever, pode ser um convite para que busquemos
investir em nossa prosperidade no tocante ao mundo das coisas materiais
e, principalmente no que se refere ao mundo das coisas do espírito.
Para que o processo de envelhecimento seja
compreendido e aceito como fato natural e proveitoso, acredito ser desejável
que mais e mais pessoas, especialmente aquelas que ainda não
chegaram à metade do caminho dos centenários, e que ainda
têm pelo menos mais 50 anos pela frente, exercitem resgatar a
simplicidade da criança que um dia foram, descomplicando a vida
dos adultos que agora são, e ampliando as possibilidades para
a velhice que um dia terão. O tempo passa e com ele caminhamos
todos juntos. O tempo passa e, com ele, todos juntos podemos viver uma
vida com mais sentido e valor.